Sugestões para usar melhor o valioso networking que todos nós possuímos e que, por muitas vezes, não utilizamos lucrativamente.
Este artigo bem que poderia se intitular "Como meu tio Baptista inventou, sem querer, o networking em 1953". Ele era primo do meu avô paterno. Solteirão convicto, morava em companhia de uma irmã, solteirona como ele, em uma bucólica e pequena vila no bairro de Vila Isabel, ao lado da praça Barão de Drummond, bem pertinho da casa que pertenceu a Noel Rosa, na cidade do Rio de Janeiro.
Eu morava próximo e era frequentador assíduo das peladas que aconteciam, para total desespero dos vizinhos, todas as tardes de sábado na vilazinha. Jogos do tipo "seis contra seis, cinco vira e dez acaba" . Bola? É claro que era de meia, sempre novinha em folha. Depois das refregas, esfolados, suados e exaustos, íamos todos para a casa do tio Baptista e da tia Augusta tomar suco e comer biscoitos. Tempos bons...
Em uma dessas tardes, depois do lanche, comecei a fuçar meio sem destino pelos aposentos da casa e acabei por entrar no quarto que o simpático tio chamava de escritório. Lá, perto da janela que dava para a varanda, havia uma mesa cheia de dezenas e dezenas de recortes de jornais. Reparei que os recortes estavam organizadamente colados com goma arábica (a gente a usava com um pequeno pincel) em várias folhas de cartolina. Ao lado de cada recorte havia uma série de nomes e números de telefones. Em cima da mesa havia, também, dois aparelhos telefônicos.
Bastante intrigado e absorto com aquela misteriosa descoberta, não percebi que tio Baptista havia me surpreendido naquela pequena "invasão" e me observava, silencioso, da porta do quarto-escritório. O susto que tomei foi tremendo. Refeito, não resisti à tentação de lhe perguntar o que significavam aqueles inúmeros papelinhos.
Para minha surpresa ele respondeu: "Meu ganha-pão, ora!"
Pacientemente, explicou-me que aquilo era seu "pequeno negócio de compra e venda". Ou seja: ele recortava anúncios de "compra-se" e de "vende-se" publicados nos dois principais jornais que circulavam no estado da Guanabara (era assim que o estado do Rio de Janeiro se chamava nos idos de 1953). Os anúncios eram reunidos por tipo de objeto ou serviço. Tio Baptista colava os "compra-se" ao lado dos "vende-se" . Telefonava para os "vende-se" perguntando o preço pedido pelo vendedor e fazia o mesmo com os "compra-se" para saber o preço máximo que o comprador estava disposto a pagar. Percebida a "oportunidade", tio Baptista intermediava a transação!
Simples e prático. O primeiro exemplo real que tive sobre o uso lucrativo de um networking !!!
Antes que você imagine que isso era apenas uma inofensiva esquisitice ou passatempo de um afável senhor bonachão com muito tempo livre para preencher, gostaria que você soubesse que o tio Baptista deixou para seus herdeiros (dentro os quais eu infelizmente não me incluí) vários apartamentos e terrenos adquiridos com os lucros do seu "pequeno negócio de compra e venda".
Esta pequena historinha serve para ilustrar as armadilhas daquilo que alguns chamam de "óbvio ululante". No caso do Tio Baptista, as dezenas de anunciantes que investiam dinheiro para anunciar a venda de algum bem ou serviço e que não se davam ao trabalho de ler os anúncios daqueles que estavam desejando adquirir justamente aquilo que eles estavam querendo vender... e vice-versa.
Espero, sinceramente, que este fato não esteja se repetindo em tão larga escala quase 60 anos depois...
A lembrança do tio Baptista e seus recortes me fazem imaginar algumas alternativas potencialmente úteis que poderiam amenizar as condições adversas de várias empresas que lutam para sobreviver em vários segmentos do atual mercado brasileiro. Por exemplo:
Para concluir deixe-me contar outra pequena história, também verídica, que ilustra bastante bem a importância de saber perceber e se adaptar às mudanças e oportunidades através de melhorias no modo de ajustar o foco de um negócio.
Era uma vez um pequeno empresário localizado aqui da zona sul de São Paulo. Freitas era proprietário de uma papelaria, fundada no final dos anos 80. Vendia material de escritório, suprimentos para informática, executava serviços de cópia. Possuía quatro empregados. Sua clientela, ampla e fiel, era constituída de estudantes de dois colégios e várias empresas e indústrias localizadas próximas à loja. Em 2006 resolveu informatizar seu negócio. No início tudo funcionava às mil maravilhas. Com o passar dos meses Freitas começou a ter problemas com equipamentos, programas, suprimentos e serviços de assistência técnica. Cada "especialista", quando atendia seus inúmeros e desesperados chamados telefônicos, não podia atender na hora e, quando atendia, cobrava um valor acima de qualquer montante de razoável bom senso.
Um belo dia, quase à beira de um provável e fulminante ataque cardíaco, Freitas conseguiu parar, respirar fundo e pensar: "Quantos outros pequenos empresários estão sofrendo o que eu estou sofrendo?". E mais: "Será que não há um bom espaço no mercado para uma prestação de serviços com a qualidade, presteza e preço que eu necessito?"
Decidido a analisar mais profundamente a viabilidade desta idéia, Freitas entrou em contato com algumas escolas de ensino de informática da região e com outros donos de pequenos negócios de varejo. Trocando idéias com professores e alunos das escolas, percebeu que havia uma excelente mão-de-obra, jovem e disposta, ávida por iniciar com seriedade a utilização prática de seus conhecimentos e sem muitas oportunidades de emprego.
Criou um espaço nos fundos da papelaria, acomodou meia-dúzia de jovens técnicos em montagem e manutenção de computadores e iniciou uma experiência de divulgação boca-a-boca.
Truco! O sucesso foi tão grande que, ao mesmo tempo em que via crescer as dificuldades do mercado de revenda de artigos de papelaria, Freitas dobrou a equipe técnica em seis meses de operação do novo negócio. Não é preciso dizer que a papelaria encerrou suas atividades em 2008, dando lugar ao Freitas Help Center (nome fictício que eu criei para preservar a identidade real do meu ex-fornecedor de suprimentos de escritório e, acredite, atual prestador de serviços de informática).
Concluindo: você não precisa necessariamente mudar O negócio. Talvez baste mudar DE negócio. Ou vice-versa.
Seu networking, quando bem administrado, pode ajudar. Muito!
Carlos Alberto Borgneth Envie suas críticas e sugestões « voltar